CINEMA - Cadê A Literatura Brasileira?

 

CINEMA

Cadê A Literatura Brasileira?

No ano em que eu nasci (1977), Rita Lee gravou a polêmica música Arrombou a Festa, na qual criticava os exageros e o estrangeirismo na música popular brasileira. Na época muitos brazucas adotaram pseudônimos horríveis em inglês. Por quê? Porque na época vendia-se mais quando o produto parecia importado. Então Fabio Jr virou Mark Davis (e também Uncle Jack), Maurício Alberto virou Morris Albert, José Pereira da Silva virou Chrystian (da dupla Chrystian e Ralf), Evanilton virou Michael Sullivan, Sérgio Reis virou Johnny Johnson e até o grande Jessé já foi Christie Burgh (Pelo amor de Deus! Christie Burgh?) e Tony Stevens.

Se ao invés de se renderem ao estrangeirismo, besses artistas tivessem lutado contra ele o mercado teria que ceder. Mas não, preferiram baixar as calças para escreverem uma das páginas mais negras da história da melhor música do mundo. Por que estou dizendo isso? Porque hoje, na literatura, vejo o mesmo acontecer e todos ficarem calados como vadias bem pagas.

Hoje nos livros "brasileiros" o vendedor de pastel com caldo de cana se chama Frenry Engerhoff, o caipira se chama Müller Esswein, a empregada (que se chama Sharon) trabalha em Birmingham e a patroa (que se chama Ashley) viajou para Nova York com o pequena Bridget.

Ora, mas o livro é brasileiro, não é mesmo? Por quê? Com a palavra Cazuza: Porque assim se ganha mais dinheiro. Uma coisa é certa, outra página está sendo escrita na literatura brasileira (?), e ela é muito feia na minha opinião.

Nada contra quem escreve um livro aqui e outro ali ambientados fora do Brasil e que use termos e nomes estrangeiros de vez em quando, mas o que está acontecendo não é isso. Ninguém mais quer que seu personagem more na Mooca, em Matões do Norte, em Laranjal ou no morro Dona Marta.

Não querem lama no que escrevem. Apenas neve. Ninguém quer que seu personagem tome cachaça, que coma feijoada, cuscuz e acarajé. Ninguém quer seu personagem falando: Valeu, mermo! Ou: Vixe Meria! E ainda: É tri legal! O orgulho do brasileiro se resume a dizer em época de Copa do Mundo: "Sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor".

Mas escrever sobre o seu país já é outra história, não é? Ou a gente faz uma literatura BRASILEIRA agora ou ela vai se tornar a literatura Alberto, que virou Albert, que virou Jonny, que virou Michael, que virou Mark, que virou Christie Burgh etc.

Como disse Rita Lee: "Com tanto brasileiro por aí metido a bamba, sucesso no estrangeiro ainda é Carmem Miranda".


Lano Andrado

Lano Andrado é escritor/roteirista, autor dos livros As Quatro Cartas de Camila,
Mesmo Que o Sol se Demore e A Divina Democracia. Foi roteirista do programa Plano Sequência,
da TV Escola, dirigido e apresentado pelo ator/diretor Carlos Vereza.
Ficou em terceiro lugar no V Prêmio Clube dos Autores, com o romance As Quatro Cartas de Camila.
Escreveu e dirigiu o curta-metragem O Vinho Que Bebi Sozinho e o Documentário Shangri-lá e Sua História.



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